sexta-feira, 29 de julho de 2011

Eliminando




Rua Quinze. Centro de São José dos Campos. 19h00min.



- Eu sei que está brava comigo, amor. Mas o que eu podia fazer? Deu errado.
- Se não tivesse dado em cima da balconista, daria certo, mas pensa com a cabeça de baixo do que a de cima.
- Onde achou que eu dei em cima da moça?
- Ah, não? A mim não me encana garotão.
- Seus ciúmes te cega e vê coisas que não existem.
- Tá me chamando de idiota?
- De jeito nenhum amor. Se não fosse aquela mulher grávida ter estourado a bolsa, a gente ia roubar aquela lanchonete.
- Pois é. Na próxima roubamos o Rabbibs.
- Lanchonete grande da errado amor.
- Bem, foda-se. Alguma espelunca pra roubar tem que dar certo ou vivo de aposentaria do INSS.
- Ah, nem tanto. Não quero acabar assim ganhando miséria.
- Então trate de arranjar um assalto pra nosso pé de meia meu caro, porque euzinha aqui não casa contigo.
- Duvido, Natasha. Você me ama.
- Não me faça rir João. Não sou suas antigas namoradas.
- Certo. Vamos voltar no hotel, me deu fome toda essa merda errada.
- Em mim também.
Em frente à biblioteca Cassiano Ricardo...
- Senhor Lennon?
- Sim?
- Bam!
- Ó, meu Deus!


Hoje em São José dos Campos no setor 001 acabo de assassinar João Lennon na Rua Quinze de Novembro.
Natasha grita tentando salvar João, pede socorro.  Ele está morto, sem salvação nenhuma.
O disparo que dei foi direto no coração sem chance de sobrevivência.
E eu desapareço como na forma que surgi sem ser notado e em silêncio.
Chamo-me João, João Lennon. E acabei de tirar a vida do meu Eu de outra realidade.
Natasha grita por socorro.
Pessoas que vinham e que estão nos veículos param para acudi-la. Ela está descontrolada, em vão chama pelo meu Eu.
A ambulância e duas viaturas da policia militar chegam. Cada um trazendo seus minutos de atraso.
- O que está acontecendo?
Pergunta um policial à moda Stallone, até a voz com ovo na boca ele tinha.
Natasha aos prantos e traumatizada tenta explicar. O nervosismo a impede.
Os enfermeiros e a médica Escandinávia e magra fazem de tudo para o meu Eu voltar à vida. Sei que nada disso dará certo.
E ao darem por vencidos a médica anuncia para Natasha. Coitada dela senti pena, sei que o trabalho é salvar vidas e ao saber que a morte ganhou mais um duelo sua frustração é penosa.
- Senhora... Sinto muito, ele não resistiu.
Ouvindo o que a médica Escandinávia disse Natasha surta. Grita, berra, fica paranóica. Chama pelo namorado que é encoberto pelos policiais com pano sujo vermelho.
- Alguém viu quem atirou nele? – Pergunta o policial à moda Stallone que na verdade era tenente Valdo.
- Ouvi o grito dela. Não sei quem disparou. – Falou um moço de boné da Nike.
- Parei meu carro pra acudir a moça. Nem sei que fez com o pobre coitado. – Disse a ruivinha.
- Também nem vi. Quando a percebi tava pedindo socorro. Parece que quem atirou evaporou no ar. – Falou um senhor de óculos.
- Sim. Só que eu estou invisível.
Com o tempo a cena se aglomera de gente.
Alguns soldados controlam os curiosos. Há o policial invocado que manda todo mundo a merda. Era cão bravo solto da coleira.
Contendo os curiosos, os que não tinham nada pra fazer, além dos fofoqueiros havia as carpideiras de plantão. No meu setor, a Terra 800 essas mulheres estão extintas. São mulheres contratadas para chorarem nos velórios. No caso aqui não havia velório e nem foram contratadas. Estavam chorando, choro convencido de que a pessoa que está debaixo do pano é seu parente ou ente querido. Esse teatro dramático ou sei lá como se define encontram forças nas entranhas para chorar. Além disso, apareceram embutidas de véus nos rostos, tudo dentro da alegoria.
Esse João Lennon, este meu Eu da Terra no setor 001 era o vigésimo que elimino desde que o professor Zaqueu veio me procurar numa tarde de sábado na minha casa no bairro Putim que nesta realidade se tornou um bairro importante.
O professor saiu de dentro de um armário que teletransportou na minha sala. Disse que era de outra Terra alternativa. Isso bem no momento do último episódio da série clássica de Jornada das Estrelas.
De que lugar tem o lance do armário?
Professor clichê. Careca, óculos grandes nos olhos, jeitão de cientista maluco, estava calmo, bem calmo para o meu gosto. Já minha pessoa levado do susto de ver um armário aparecer do nada, queria entender aquilo.
- Senhor Lennon?
Assustado respondi que era eu.
- Sou o professor Zaqueu vim da Terra setor 500, outra realidade alternativa e existem multiversos que possuem vários planetas Terras e realidades.
Hã? Multiverso? Terra setor 500?
Multiverso é o conjunto de muitos universos.
Existem milhares de planetas Terras, milhares de realidades alternativas do planeta Terra e cada um se movimentando e agindo de forma diferente do outro e cada um recebendo o seu setor.
O professor era do setor 500, eu sou do setor 800 e meu Eu que matei há poucos minutos era do setor 001. Esse setor é da Terra original, onde eventos da historia não sofreram alterações.
Acabado a explicação e recuperado do susto era a minha deixa para perguntar. O que ele queria comigo?
- Você vai entrar em missão.
Foi o que respondeu.
- Na minha realidade um vírus gerado numa vacina matou milhares de pessoas no Brasil e vem se espalhando pelo planeta todo.
- E quem espalhou o vírus?
- Seu filho. Seu filho da minha realidade alternativa.
E o professor Zaqueu contou que o filho do meu Eu no setor 500 junto com o professor participava de uma equipe de cientistas da USP que estudavam as manifestações de vírus que criavam. O filho de minha contraparte sofria de problemas mentais e psicológicos e era dependente de drogas químicas e possuindo desejo megalomaníaco trocou a vacina boa pela vacina que continha o vírus mortal.
A vacina trocada foi usada na campanha contra a gripe já que o inverno estava chegando.
Com o vírus na vacina gerou gripes na população de São José dos Campos espalhando o contágio rapidamente. Depois de São José dos Campos, chegou São Paulo, se expandiu para o estado inteiro, chegando ao sudeste inteiro, partindo para o sul, indo para o norte e seguindo sua devastação.
Os sintomas da gripe são terríveis, pois a resistência leva ao óbito em três semanas.
O filho de meu Eu após sua loucura entrou na frente de uma carreta depois que ingeriu droga na veia.
Esse fato aconteceu nesse tempo, e o meu Eu da realidade do professor morreu há trinta anos.
- E de que jeito me encaixo nisso?
- Você evitará que as demais Terras e realidades tenham o mesmo destino do que a minha. Pra evitar terá que eliminar seus Eus viajando no tempo procurando os Joões Lennons e os eliminando. Assim, não poderão gerar filhos que como o da minha realidade matou e vem matando milhares de pessoas.
Entendendo o que o professor Zaqueu explicou, ele me entregou uma pistola, um cinto que ao acionar seu dispositivo me torna invisível e o armário.
O armário o transporte que me teletransporta para outras Terras e realidades.
Além disso, um capacete de motoqueiro e uma jaqueta de couro.
- Evite que demais mundos não sejam condenados como o meu.
E ao terminar a frase o professor entrou no armário e desapareceu deixando-me sozinho no meio da sala.
E assim comecei a missão.

No momento no setor 001 na calçada debaixo do pano vermelho o João Lennon que alguns minutos matei vem aglomerando de pessoas. Não entendo porque gerou essa multidão que até Natasha está sufocada.
- Vão pra casa, seus urubus!
Natasha grita descontrolada. A médica aconselha dose injetável de calmante na veia.
- Não quero agulha nenhuma no meu braço! Quero meu João. João!
A médica Escandinávia ordena os enfermeiros segurar Natasha, o estado psicótico dela não ajudaria em nada.
- Sem encostar em mim, seu viado!
E os enfermeiros travam uma batalha com ela e ela consegue golpear um deles no nariz. Violenta e possessa não vejo muitas esperando aos dois homens.
- Alguém, por favor, segure essa mulher!
A médica no desespero convoca auxilio. A multidão na Rua Quinze de Novembro assiste a tudo.
E vem o soldado cão bravo e com seu “jeitinho” peculiar dá um jeito na situação. Segura os braços de Natasha que nem teve mais como reagir, só berrar.
- Larga meu braço, seu puto desgraçado!
Neutralizada, a médica aplica a injeção na barrica da Natasha, já que era o único lugar disponível encontrado.
E Natasha adormece, logo que o efeito invade o seu corpo.
...

Depois de ser convocado pra missão, tive que dar uma boa desculpa para Natasha minha namorada da minha realidade.
O que ela não aceitou muito bem.
- Foda-se você e suas vacas!
Jeito delicado de dar boa sorte.
Antes, refleti alguns minutos, antes de tomar a iniciativa de sair por aí viajando no tempo. Refleti que se não fosse, pessoas inocentes poderiam ser prejudicadas, principalmente crianças e esse motivo fizeram-me entrar na missão.
Recebido a boa sorte da minha namorada, coloquei o cinto, vesti a jaqueta e coloquei o capacete, a pistola no cinto e abrindo o armário entrei partindo para as Terras alternativas.
Maluquice ou não, lá ia caindo em muitas realidades, um tanto malucas, algumas normais e outras que não havia sol, uma que existia a lua, uma tinha a neve encobrindo o mundo inteiro, outra as pessoas viviam de ponta cabeça, ou seja, varias Terras e suas realidades.
Como meu Eu do setor 500 gerou o filho que numa crise megalomaníaca infestou a população com vacina de vírus mortal tomei a decisão de eliminar os Joões Lennons, decidido de que nenhumas das realidades tenham os mesmos destinos.
Minha primeira missão aconteceu no setor 200.
Meu Eu se encontrava numa clinica psiquiátrica. Neste lugar o João Lennon desse mundo tinha caso com a Natasha que era enfermeira.
Apareci no quarto feito fantasma. Ele estava deitado e acordado.
- Senhor Lennon?
- Quê, o quê é isso?
Seu rosto se contraiu de medo ao me ver apontando a pistola para ele. Um disparo no peito foi suficiente.
Não demorou para os funcionários entrarem e também Natasha que vendo seu amado morto não se conteve e a clinica naquele exato momento souberam do caso dos dois.
Em seguida estava no setor 69, meu Eu morava com uma transexual que nessa realidade haviam descoberto meios para os transexuais pudessem ter a alegria de poder ter filhos.
Moravam juntos num belo apartamento no centro de São José dos Campos. Natasha preparava lanche e João assistia um programa de fofocas na TV.
- Senhor Lennon?
- Quem é você! De onde veio?
- Bam!
Natasha chamou o namorado e como não ouviu resposta foi à sala e gritou quando presenciou meu Eu morto no sofá.
É um tanto frio o trabalho. Tirar a vida de alguém. Talvez nessas realidades nenhum João Lennon possa engravidar uma Natasha. Senti-me mal no começo e como falei, já viajei por varias realidades. Aos poucos fui acostumando com esse fato.
...


O caminhão do I.M.L encosta. A televisão busca respostas na boca do povo. A repórter de um canal local tenta conseguir noticias.
- Não sei de nada moça, estou porque curto ver montão de gente.
- Eu querida? Estou aqui porque sabia que a televisão vinha aí me arrumei toda. Estou linda? Posso mandar abraços e beijos pra moçada do meu bairro?
- Tenho medo de falar moça. Sabe como é, há milhares de conspirações no mundo e se eu contar, vai que o espião ainda esteja aqui e me pegue depois? Por isso fico de bico calado.
O corpo colocado no caminhão com desprezo.
- É mais um que foi. – Comentou o funcionário do IML
- Mais um para o povão curioso e carniceiro se aparecerem. Bandos de cretinos se aproveitam da desgraça alheia. – Comentou o outro funcionário.
O tenente Valdo no ouvido do soldado cão bravo fala alguma coisa pra ele. Pelo jeito foi dada uma ordem.
A ambulância com Natasha parte com a sirene gritando feito louca desequilibrada.
- Pois é gente boa, acabou o show. Todo mundo vazando. Vamos, vamos!
Mandava o policial cão bravo.
A platéia não queria deixar o espetáculo.
...


Sei que algumas realidades um João Lennon possa ter engravidado uma Natasha e foi que me ocorreu na Terra setor 643. Lá a Natasha estava grávida de três meses.
Como havia dito, há muitas realidades, centenas e milhares delas, há muitos de mim eliminando meus Eus para salvar as Terras da epidemia. E há outros professores Zaqueus. Ou imaginaram que haveria somente o que apareceu em casa?
Por isso não garanto que certas realidades não puderam evitar o desastre.
Continuando, caí na Terra do setor 643 e lá, a Natasha estava grávida e que me forçou uma ação angustiante.
O armário teletransportou para dentro da casa que ficava na vila Ema.
O casal tinha acordado. Era de manhã, sete horas. O primeiro acordar foi João que carinhosamente acordou Natasha.
- Senhor Lennon?
Natasha gritou vendo-me. Não esperei João falar, ele encontrava-se morto nos lençóis brancos.
É claro que Natasha ficou em estado de choque e começou a berrar. Reação típica.
- João, João?
Sacudia o marido.
- Natasha, ele morreu. João morreu.
Ela me olhou, seu rosto um rio de lagrimas.
- C – como apareceu. De onde veio?
- Natasha é complicado dizer, mas sou de outra Terra, de outra realidade. Estou em missão.
- Missão? Que tipo de missão?
- Tenho que eliminar os Joões Lennons para impedir que no futuro os filhos deles possam condenar as suas realidades.
- E quem é você, seu maluco? Seu assassino!
Tirei o capacete e Natasha se assustou ao descobrir quem eu era.
- Você, você...
Tentou dizer, a voz travou.
- Sou João Lennon. Sinto muito por isso.
- Sente muito? Sente? Meu João está morto do meu lado, assassino! O que vai ser do meu filho sem pai? Assassino!
- Filho?
- Estou grávida de três meses e agora meu filho crescerá sem pai.
Sabendo do que ouvi não consegui pensar numa outra solução. Mesmo sendo terrível para mim.
- O que vai fazer? Matar-me também?
Ela perguntou ao ver-me apontando a pistola para ela.
- Lamento Natasha. Isso é necessário. Daqui a trinta anos seu filho criará um vírus que se transformará numa gripe mortal e acabará em epidemia no Brasil. Por isso estou aqui para não permitir que sua realidade seja condenada.
- Não... Não faça. Juro que meu filho não será essa pessoa que diz. Não faça.
- Sinto muito. No futuro haverá milhares de vidas perdidas.
Ela gritou e levantou os braços na tentativa de se defender. Um disparo na cabeça. Senti-me terrível.
...



Meu tempo na Terra do setor 001 está no fim.
A passagem para minha realidade está quase fechando.
Tempo suficiente de ver o começo do confronto.
O corpo do meu Eu encontrava-se bem distante dali e o tenente Valdo que era a moda Stallone... Uma pausa: Na minha realidade também existe um Stallone. Ou pensaram que existe somente neste setor? De jeito nenhum. Há a versão do Stallone em minha realidade, como tem os Vans Dammes, os Bruces Willis e os Brads Pitts da vida. Alias, estamos falando de muitas realidades.
Voltando. Após o tenente Valdo cochichar no ouvido do policial cão bravo que exatamente foi uma ordem para dispensar a platéia curiosa. O policial utiliza de certa ação desnecessária, começou a disparar seu revólver para cima na esperança que seu ato espantaria a multidão.
- Bam, bam, bam!
- Pois é gente boa, acabou o show. Todo mundo vazando. Vamos, vamos!
O que o soldado fez foi gerar revolta do que intimidar o público.
- Ei, seu viado. Ninguém arreda o pé daqui não!
O policial soca o nariz do rapaz de cabelo moicano e piercing e ele acaba de começar uma batalha entre os civis e militares.
- Merda, merda! Chamem reforços, chamem reforços!
- Temos imagens de um confronto que começou há pouco. O confronto da policia militar e civis na cena de um crime misterioso de um homem que acompanhado da namorada recebeu disparo mortal em frente à biblioteca Cassiano Ricardo na cidade de São José dos Campos. Aqui quem fala é Joana Kurt, repórter do TV Crime e Violência. E posso confirmar que não acabará bem.
Ouvindo o desespero do tenente Valdo e da narração da repórter entrei na passagem antes que fechasse levando-me de volta a minha realidade.
Abro o armário e o telefone toca desesperadamente. Olho o rádio relógio, são dezoito horas.
- Alo?
- Oi, meu gostosão!
- Natasha?
- Sou eu meu lindo. Estou ligando para dar uma ótima noticia meu amor.
- Noticia? Que noticia?
- Ó, meu bonitão, você vai ser papai. Vai ser papai, meu amor. Não é lindo?
Natasha grávida? Ah não...
- Amor? Ta ainda aí?
- Sim, sim. Vou pra sua casa. To indo.
- Ta bem. Vem amor.
Natasha grávida? Natasha grávida!
Estou com raiva de mim mesmo. Será que tornei assassino? Como é a sensação de tirar a vida de sua namorada? Lixo! Sou um lixo!
Demora quarenta e cinco minutos para eu chegar ao prédio da Natasha que fica no bairro Colinas, uma das áreas nobres da cidade.
Ela está linda dentro do vestido preto. Seu perfume caro e seu cabelo escuro e longo, seus olhos castanhos iluminando luzes de paixão. Ela liga a nossa musica: “O amor Eterno Entre Nós.” Ela sabe ser especialíssima em romantismo, eu apenas roubo rosa do vizinho. Natasha criou o clima que quebrarei e os cacos se espalharão.
- Oi, meu lindão. Entre.
Entro. Não posso enrolar, tem que ser logo, senão pode ir por água abaixo.
Natasha prepara a bebida e na sua frente uma grande janela de vidro do tamanho de uma pessoa.
- Que maravilhosa noticia de eu estar grávida não é amor?
- Sim.
Aponto a pistola pra ela e ela percebe.
- O que é isso João?
- Natasha... Desculpa. É complicado. Se você ficar viva nosso filho condenará milhares de pessoas. Sinto muito amor.
- Seu merda filhinho da mamãe! Seu infantil desgraçado!
E ia afastando para trás e ao ficar próximo da janela...
- Covarde, machista, desgraçado, filho de uma p...
- Bam!
E Natasha com o impacto é lançada pra fora. São vinte andares até ela chegar ao chão.
- Eu te amo Natasha. Te amo...
Ainda com a pistola apontada e chorando.
Só que a história não acabou.

Conclusão:
Depois que desabei em prantos no sofá, penso que ela deve ter sido encontrada. É questão de tempo pra policia aparecer.
A passagem abre na minha frente e dela sai uma pessoa usando os mesmos apedrejos que eu usava.
- Senhor Lennon?
- Chegou atrasado.
Ele me olha surpreso não entendendo o que falei.
- sei por que veio. Sei da história toda.
- Senhor Lennon?
- O que está esperando? Atira logo, porra!
Bam! Bam! Bam!

(Rod.Arcadia)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Zé e o Capeta Enrolado























E o capeta chega pra levar o Zé.
Já se passaram sete anos após Zé ter feito o pacto com o coisa ruim.
Sem delongas, o capeta coloca a corda no pescoço do Zé, que malandro como era fala que o tempo de contrato tinha mais um prazo de um ano.
E o capeta que não era bobo nem nada mostra o contrato e o Zé engole o medo e vê que a data se encerra neste dia e horário.
Mas Zé fala que ainda não tinha ido a Disneylândia e nem subido na torre Eiffel.
O capeta não escuta a choradeira do Zé, quem manda gastar o que recebe com cachaça e as quengas da vida.
Zé reluta, fala que o que recebeu foi pouco e que falaria com o chefão do capeta.
O capeta ri do homenzinho. Não tinha jeito, o capeta levaria a alma do Zé.
E sem esperar, vai logo afrouxar a corda no pescoço do Zé.
E Zé grita pare. Faz o coisa ruim parar.
Pede para o coisa ruim não tirar a vida dele na casa, pois não quer ser espírito preso nela, quer morrer ao ar livre, ver o dia tão bonito.
E o capeta pensa, pensa e decide atender ao pedido do condenado.
E no meio do mato, dia ainda, muita luz pra clarear e o capeta ansioso por ter mais outra alma no currículo vai logo fazer o seu serviço.
E o Zé o impede. Pede mais uma coisinha, uma coisinha só e que aí a vida dele era do coisa ruim.
O Zé pede pra tirar a corda do pescoço dele e o capeta desconfiado tira. Não tinha como o humano sair correndo e nem chutar no meio das pernas do coisa ruim, até porque, bem, não sabemos se coisas ruins tinham sexos.
E o capeta retira a corda do pescoço do Zé.
Zé estica o corpo, expira, inspira e enche o peito e dá um forte assobio pra cima.
E o capeta não compreendendo já ia colocar a corda de novo.
De repente, o céu escurece, aparecem trovoadas e no alto surgem vozes cantando musicas de louvores.
Malandro, o Zé dá aquele sorrisinho esperto.
Furioso, o capeta não quer esperar, a vida do Zé ele leva.
Porem, uma luz tão forte faz o capeta cair pra trás e do alto dois arcanjos.
Dão nas línguas dos anjos a sentença para o capeta e com suas espadas faz o capeta furo da vida voltar ao seu lar.
E assim o Zé escapa de ir ao inferno.
Dá uma piscadinha de agradecimento aos amigos arcanjos e sai contente cantando o cordel da lenda do Zé o capeta enrolado.

(Rod.Arcadia)

sábado, 16 de julho de 2011

Apagando...








- Então é chegada a hora?
Pergunta um homem aparentando cinqüenta anos deitado numa maca. Há vários fios ligados em todo hemisfério de sua cabeça e os fios estão conectados a uma pequena maquina computadorizada.
O lugar parece ser um hospital ou clinica. É branca a sala, fria e silenciosa.
- Certamente. – Responde o outro que era mais velho que o homem deitado. Tinha cabelos crespos grisalhos, olhos azuis. Usava jaleco cinza e possuía aspecto sério.
- E dará certo? Pergunta o homem que está na maca.
- A transferência sairá perfeitamente, William. Logo, suas lembranças, memórias e recordações serão apagadas e você não se lembrará de mais nada.
- Até mesmo esquecer minha esposa e filhos?

- Sim. Eu sei. Há muito tempo deixei de ser meu verdadeiro eu. Esse seria o meu vigésimo clone.
- Exatamente William. Como eu, sua família, a minha, como aqueles que aceitaram o pacto desse projeto.
- Em breve num novo corpo.
- Sim. Todos nós. Nossos clones já foram criados e armazenados. Basta apenas transferir nossas memórias e recordações e recomeçarmos novamente do zero.
- Estamos brincando de Deus. – Diz William.
- Estamos fazendo a morte de boba. – Responde o homem.
- Queria que não tivéssemos esse prazo de validade.
- É o risco que acatamos. O corpo de um clone tem o seu limite. Mas pense, cinqüenta anos é um enorme tempo.
- Sim. Claro. Tem razão.
- Daqui a cinqüenta anos você me fará as mesmas perguntas e eu repetirei as mesmas respostas.
- Verdade. – William ri.
- Pronto?
- Sim. Pode começar a apagar minha memória e a transferência.
- Começando.
- Um ultimo pedido, por favor.
- Sim?
- Diga a minha esposa que ela é meu eterno amor...
- Ela saberá. Processo de deletar memórias começando. Um, dois, três... Apagando...

(Rod.Arcadia)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Sr. Jonas










Encontrei o Sr. Jonas por acaso na rua.
Nem o reconheci. Estava magro, semblante melancólico, o cabelo ralo, o rosto seco e os olhos azuis perderam o brilho.
Ele parou, olhou pra trás, mas não reconheceu.
Depois ficou surpreso, se lembrou.
- Cresceu muito. – Disse.
O Sr. Jonas não era a mesma pessoa de quinze anos atrás.
- Eu sou um escritor morto. – Disse. – Acabei de perder a vida naquela esquina. Vê as luzes da ambulância e do carro da policia?
Havia luzes e movimentos de pessoas.
- Acabei de reagir há um assalto e levei tiro. – Ele voltou a falar.
Na atual situação ou pelos problemas que estava passando convidei o Sr. Jonas a ir em casa.
- Terá prazer em receber um morto em sua casa?
Gargalhei, mas o deixei-o sem graça.
Dei o endereço e falei que poderia vir em casa daqui a dois dias.
- Acredite jovem, morri e o meu corpo está naquela esquina.
Vi ele se afastar após algumas esquinas.
No dia que o Sr. Jonas desapareceu, eu saí na rua e fiquei chamando seu nome na esperança dele surgir, os vizinhos reclamaram do barulho e nada do Sr. Jonas.
Entrei em casa aos prantos e falei que o Sr. Jonas havia sumido e meu pai me consolou.
- Ele volta filho.
Ele não voltou.
Tentei montar um jornal em sua homenagem, recusaram.
- Lamento, não iremos montar um jornal para um cara que nunca ouvíramos falar.
Eu apelava. Quem não conhecia o Sr. Jonas?
- Sinto muito, jamais vi mais gordo.
Tinha esperança que o Sr. Jonas seria encontrado e o dia chegou.
Ele chega do mesmo jeito, toca minha mão e sinto arrepio que me faz remexer.
- Desculpe, minha mão é um gelo. – Explica.
- Não há nada para se desculpar. – Eu disse.
- Você era jovem naqueles tempos e veja só, virou homem.
- Quinze anos, Sr. Jonas.
- Eu sentia a sua falta, de uma hora pra outra o senhor some, sequer vestígios.
- E voltei. Mesmo estando morto.
- Sou o seu único leitor, o seu leitor favorito e fiel.
- Agradeço. E voltei para que faça um favor para mim.
- Estou as suas ordens. – Falei.
- Daqui a três dias haverá o meu enterro.
- O senhor com seu humor. – Ri.
- Estou falando serio, quem está diante de você é um morto.
- É difícil não levar a situação para brincadeira.
- Não há brincadeira, estou morto realmente.
- Continue senhor.
- Daqui a três dias haverá meu enterro. Antes de eu partir definitivamente quero que me leve nas casas dos meus companheiros. É o meu desejo, faça isso e eu irei embora satisfeito.
- Farei tudo para alegrá-lo.
- Sempre soube disso.
Ele sorri. Um riso alegre de prazer.
- Amanhã. Amanhã sairemos para realizarmos nossos objetivos.
Ele abre a porta e vai saindo e de costas com a mão levantada se despede:
- Adeus.
Esperei o dia nascer com ansiedade e de manhã o Sr. Jonas chega. Está de calça e casaco preto e chapéu branco na cabeça.
- Pronto? Pergunta para mim.
- Mais do que nunca senhor.
E saímos. Dirigimos-nos para um hotel de cor avermelhada.
Subimos à escada de madeira carcomida e batemos no numero 22.
Um senhor de cabelo ralo, branco de óculos, usando pijama verde atende. Seus olhos brilham de contentamento ao ver o Sr.Jonas.
Houve emoção nos seus abraços.
Entramos, colocam à conversa em dia.
- Fico agradecido por sua presença amigo. - Disse o amigo do Sr. Jonas que se chamava Lineu.
A conversa dura duas horas, eram saudades a serem desfeitas.
Deixamos seu Lineu e seguimos em outro bairro, numa casa de fundo de portão enferrujado.
O Sr. Jonas pede que eu bata palmas. Atende um senhor de cabelo crisalho. O Sr. Jonas saúda a senhor e ele alegre vem nos atender.
Entramos na casa dele. O Sr. Jonas revela que o amigo era excelente poeta.
- Uma mistura de Rimbaud e Manuel Bandeira. – Define o Sr. Jonas.
O amigo de nome Carlos Manuel mostra seus manuscritos e vejo tanta riqueza e revolto. Como alguém pôde recusar um material de ótima qualidade?
- É o sistema jovem. Bruto e ao mesmo tempo decadente. – Falou o Sr. Carlos Manuel.
Da conversa agradável partimos para outro bairro. Paramos de frente a uma casinha e no quintal um homem com chapéu de palha, camisa xadrez e chinelo. Cuidava de um canteiro de margaridas e orquídeas.
O Sr.Jonas o chama e o homem demora em reconhecer. Pergunta quem é. E o Sr.Jonas abre os braços e diz:
- Ah, seu macaco velho, não finja que esqueceu.
Convida a entrarmos na sua casinha, prepara café que a gente toma, nos conta da vida que levava e ele e o Sr. Jonas conversam sobre as coisas da vida e de coisas de antigamente.
- Eu levei um tiro.
O Sr. Jonas abre a camisa e mostra a marca da bala. Fico arrepiado e ao mesmo tempo horrorizado.
Despedimos-nos do amigo e entramos no restaurante. Pedimos arroz, feijão e bife. A gente bebia Tubaína e dali voltamos para minha casa.
- Consegui rever os companheiros, o que me deixou satisfeito. – Disse o Sr. Jonas. – Peço-te um ultimo pedido.
- Peça que eu faço senhor. – Disse.
- Seja acompanhante do meu próprio velório.
- Senhor, ainda com essa idéia?
Paramos de frente ao meu portão. Não podia negar nada ao Sr. Jonas.
- Pode contar comigo senhor.
- Agradecido.
Passaram os dias ligeiramente e de manhã o Sr. Jonas inteiro de preto aparece.
Considerando absurdo pergunto o horário do enterro na qual responde com naturalidade.
- Estamos atrasados, o enterro será às onze e meia.
Verifiquei no relógio.
- São dez e vinte, temos tempo. – Disse.
- Precisamos chegar adiantado, quero acompanhar, assistir cada momento.
Não sei por que, acho que algum problema afeta o Sr. Jonas.
Dizer que está morto e assistir o seu próprio velório é assunto grave e sério.
Não tenho coragem de falar que precisa procurar um especialista, estaria traindo sua confiança.
Entramos no bairro. As casas de portas e janelas fechadas, a rua vazia, silenciosa. Os comércios de portas abaixadas. Não se via ninguém.
No entanto, lá no fundo, bem lá no fundo, uma casa despercebida que não chamava atenção, discreta, exibia a porta e janelas abertas.
Era pra essa casa que se dirigia o Sr. Jonas. Retive. O Sr. Jonas deu alguns passos e não sentindo minha presença pára e vira para trás. Ele dá sinal com a cabeça para eu continuar e começa a andar.
Tento falar, a boca trava. Torno a caminhar.
O Sr. Jonas pára em frente à única casa que está com as janelas e porta aberta. Dentro uma fraca iluminação emana e não dava para distinguir se tinha alguém dentro. Não ouvia som algum, nenhum canto, reza ou falatório. Apenas silencio.
O Sr. Jonas abre o portãozinho e fala:
- Daqui por diante tomará a frente, fui onde era permitido e esse momento chegou. Você segue o caminho sozinho. Agradeço a maravilhosa companhia que tivemos nestes dias. Adeus.
- Sr. Jonas? O senhor não vai entrar?
- Não jovem. Aqui eu me encerro. Você que prosseguirá adiante.
- Não entendo senhor, viemos aqui para o seu...
Ele me interrompe, matando o que eu iria falar.
- Velório? O seu velório você quer dizer.
O Sr. Jonas mesmo na simplicidade e ingenuidade me assustava, mesmo que a voz era de total sinceridade.
- Senhor...
- Não jovem, ainda não entendeu. Eu sou você mais velho ou que deveria ser. Você é Jonas, o verdadeiro. Sou você mais velho e no futuro. Infelizmente um disparo na rua terminou com seu destino. Um disparo e sua historia no mundo acabou. Por isso, eu me encerro neste ponto. Até.
O Sr. Jonas balança a mão timidamente e foi desaparecendo devagarzinho.
- Sr. Jonas...
As vozes de dentro da casa começam a nascer. Cantoria?
Sim. Cantoria, cânticos, musicas de preces e louvores. O cântico termina. Começa a Ave-Maria.
São vozes femininas, vozes de senhoras, rezando a Ave-Maria.
E os meus passos se dão na casa de janelas e porta aberta, onde há um velório.
Na porta, as senhoras ajoelhadas de cada lado com seus terços rezam e no meio no fim da sala o caixão velado.
A casa iluminada com velas de sete dias. Ocorreu a vontade de me aproximar sabendo que meus anseios eram de não prosseguir. Assim caminho.
As senhoras rezam a Ave-Maria com seus dedos suados no terço, era o terceiro mistério e sigo o meu cortejo no meio das senhoras. Ao passar perto de uma, ela estremece, e outra de soslaio me vê passando e seu rosto contrai-se de pavor. A que comanda a reza, sua voz muda de tom, está mais densa, pesada e as restantes seguem o mesmo ritmo.
Ao aproximar do caixão eu vejo a revelação.
E me arrepio vendo-me deitado num triste sono eterno...

(Rod.Arcadia)